Jac Leirner

INSTITUTO INHOTIM

BELO HORIZONTE

SÃO PAULO

São Paulo, 1961; vive em São Paulo

Jac Leirner junta objetos banais: souvenirs de voos, notas de dinheiro, cartões de visita, maços de cigarro, etiquetas de identificação de obras de arte. Ao longo de anos, acumula, classifica e organiza esses materiais, que antes eram invisíveis por serem tão familiares. Uma vez deslocados, porém, para um novo contexto, suas formas plásticas são ressaltadas, e a artista cria composições utilizando-os como matéria-prima. A leitura do trabalho necessariamente passa pelo reconhecimento do uso cotidiano desses objetos, que se transformam em composições influenciadas por movimentos artísticos históricos, como a pop art, a colagem dadaísta, o concretismo paulista e o minimalismo. O trânsito entre os contextos sociais e artísticos é reforçado pelo material escolhido, que têm função primordial de ser meio – seja para trocas financeiras, seja como parte de ambientes onde acontecem as viagens.

Na série Os cem, realizada entre as décadas de 1980 e 1990, período da hiperinflação brasileira, Leirner trabalhou com papel- moeda, colecionando notas de cruzeiros e cruzados. O título, com seu duplo sentido fonético, refere-se tanto ao numeral quanto a uma falta. As notas trazem a história de sua circulação, com seus tons desbotados, sujeira acumulada e grafites feitos pelos usuários. Em Fase azul (Numbers), elas foram dispostas geometricamente, assemelhando-se a uma pintura construtiva. Mas estão presentes também as recorrências de Leirner, como a organização, a repetição e a sequencialidade. A composição é feita a partir de cédulas com números aleatórios rabiscados por pessoas anônimas, colecionadas pela artista e então obsessivamente ordenadas. Em Corpus Delicti (1993), os objetos revelam as viagens feitas por Leirner: cartões de embarque e cinzeiros tirados naqueles voos, daqueles assentos. A tradução do título em latim nos sugere que o que vemos é a prova do crime, a afirmação material da possibilidade de transgressão que interessa à artista desde sua adolescência punk e levada adiante por sua arte.

Cecília Rocha