Kiyoji Otsuji

INSTITUTO INHOTIM

BELO HORIZONTE

SÃO PAULO

Tóquio, Japão, 1923 - Tóquio, 2001

A partir dos anos 1950, com a emergência de práticas artísticas efêmeras como ações e performances, a documentação fotográfica ganhou importante papel para garantir a sobrevivência desses gestos. Nesses casos, a fotografia reveste-se de uma carga singular, uma vez que funde suas possibilidades de reprodução ao caráter fugidio das obras que registra. Não se trata da obra em sua totalidade, mas de vestígios e traços de memórias. É o caso do portfólio Gutai Photographs 1956–57, de Kiyoji Otsuji, em que vemos o registro de algumas das primeiras obras do grupo Gutai, um dos mais importantes da vanguarda japonesa no pós-guerra. O contexto da vanguarda é o próprio contexto do surgimento da obra de Otsuji, que também esteve envolvido em outro grupo japonês importante, Jikken Kobo (Ateliê Experimental), no qual, além do próprio trabalho como fotógrafo retratava obras de outros artistas. O espírito de experimentação acompanha sua obra, bem como a dos artistas com quem colaborou.

Nas imagens do portfólio, vemos Saburo Murakami atravessar telas de papel, rompendo a superfície pictórica com o próprio corpo; Kazuo Shiraga usa os pés para distribuir a tinta sobre suas pinturas, enquanto Shozo Shimamoto lança bombas de pigmento contra o quadro, recriando o gesto; afastando-se um pouco da pintura, Atsuko Tanaka experimenta seu Vestido Elétrico (foto acima). Todas essas ações pertencem à 2a Exposição Gutai, de 1956. No ano seguinte, o espaço da arte se desloca para o palco, e as fotografias de Otsuji ganham um tom mais noturno. Há dança, material efêmero ou sua própria destruição, luzes, fumaça e sombras, e a ritualização da prática artística – o corpo torna-se o principal veículo da obra. Vários desses gestos são pioneiros e ressurgem, de forma consciente ou não, na obra de artistas que trabalham em outras partes do globo. A testemunha ocular, munida de uma câmera, não deixou que suas origens fossem esquecidas.

Rodrigo Moura