Lygia Clark

INSTITUTO INHOTIM

BELO HORIZONTE

SÃO PAULO

Belo Horizonte, 1920 – Rio de Janeiro, 1988

Ainda está para ser inteiramente compreendido o alcance da contribuição de Lygia Clark para a arte do século 20 em diante. E o fato é que ele é cada vez mais amplo e incontestável. Belo-horizontina, Clark emergiu no contexto do grupo concretista do Rio de Janeiro e foi aluna do paisagista Roberto Burle Marx (1909-1994), que inspirou os jardins do Inhotim. O plano pictórico foi seu ponto de partida para dialogar com os principais artistas do cânone construtivista, como Piet Mondrian (1872–1944), Kazimir Malevich (1879–1935) e Paul Klee (1879–1940). De meados dos anos 1950 à metade da década seguinte, a artista empreendeu uma jornada de emancipação do estatuto cultural da pintura, conferindo caráter objetal ao quadro, reforçando a importância da linha como elemento de organização do espaço e chegando à abolição da fronteira entre a pintura e o mundo. A essa descoberta Clark chamou de “quebra da moldura”.

As Unidades (1959-84) representam um momento importante nesse percurso. Essas pequenas pinturas monocromáticas são construídas com chapa de madeira e tinta industrial. Sobre sua superfície, outras chapas são colocadas, gerando intervalos e sobreposições, frestas e sombras, que reforçam o caráter orgânico da obra e de sua existência no espaço. A complexidade desses interesses aparece reunida e narrada em Livro obra, livro de artista com edição limitada de 24 exemplares. Ali Clark evoca, com textos e imagens, uma série de obras produzidas desde meados dos anos 1950, nas quais o espaço é torcido, reconfigurado e ativado, e a experiência da pintura é revivida no papel. O livro, com suas múltiplas possibilidades de leitura, revela-se suporte apropriado para registrar as descobertas da artista. Num texto de 1966, incluído no Livro obra e batizado Nós recusamos, Clark anuncia: “Propomos o precário como conceito de existência contra toda cristalização estética na duração”.

Rodrigo Moura