Lygia Pape

INSTITUTO INHOTIM

BELO HORIZONTE

SÃO PAULO

Nova Friburgo, RJ, 1927 – Rio de Janeiro, 2004

Uma das artistas mais inovadoras de seu tempo, Lygia Pape trabalhou com pintura, gravura, escultura, dança, design gráfico, filme, performance e instalação. Foi fundadora do Grupo Frente, em 1954, e do neoconcretismo alguns anos depois, dois dos principais movimentos brasileiros de renovação do cânone construtivo europeu, ambos baseados no Rio de Janeiro. De forma inventiva, os neoconcretistas transcenderam o distanciamento formal do concretismo, mediante seu interesse pela dimensão social da arte e pela interação entre arte e público. Ao lado de Amilcar de Castro (1920–2002), Ferreira Gullar, Franz Weissmann (1911– 2005), Hélio Oiticica, Lygia Clark e outros, Pape transformou radicalmente a arte brasileira do período. Esse grupo alcançou visibilidade inicialmente na 1a Exposição de Arte Neoconcreta e com a publicação do Manifesto Neoconcreto, ambos em 1959, reivindicando o lugar da liberdade, da experimentação e da subjetividade na obra de arte.

Nesse sentido, o Livro da criação é considerado uma obra-chave do período neoconcreto inicial, consistindo em 16 páginas de papelão pintadas e recortadas, que se desdobram em relevos geométricos e abstratos. Cada página é acompanhada de um título, que sugere poeticamente uma representação correspondente a cada uma das composições abstratas. O livro conta a história da criação do mundo, com passagens sobre o recuo das águas e a invenção do tempo e da luz. Originalmente, Pape convidava o espectador a criar outros sentidos e narrativas ao manipular o livro. De modo similar à Tteia 1C (2002), em exposição permanente no Inhotim, o Livro da criação se caracteriza pelo contraste entre um objeto físico simples e feito à mão e a espiritualidade sublime contida nesse gesto. Trata-se de uma obra aberta, que fala tanto sobre a gênese da Terra quanto sobre o processo de criação pelo qual todos nós passamos diante de uma obra de arte.

Jochen Volz