Raquel Garbelotti


BELO HORIZONTE

SÃO PAULO

Dracena, SP, 1973; vive em São Paulo

No ano 2000, a jovem artista Raquel Garbelotti esteve em uma fazenda no interior de Minas Gerais, onde havia uma casa, um jardim e o desejo de convidar artistas para criar obras de arte. Entre esses, a própria artista, que, durante a visita, fotografou o lugar para o qual sua obra poderia vir a ser concebida, produzida e instalada. Como desfecho do encontro, por diversas razões, artista e colecionador acabaram não levando adiante o projeto. Aquele local, porém, anos mais tarde, seria a sede do Instituto Inhotim, um dos principais museus de arte contemporânea da América Latina. O documento de Garbelotti registra a paisagem de maneira misteriosa. É a tomada de um espaço aberto, A clareira, mas seus contornos são pouco nítidos. Trata-se de pensamento a posteriori, resultado do contato ativo com um espaço fértil. Numa inversão hierárquica, a imagem de processo acabou por se tornar a própria obra encomendada.

Na obra de Garbelotti, que inclui fotografia, instalação, videoinstalação e escultura, muitas vezes a percepção do espectador é desafiada por jogos de escala, modulação e montagem. Sua linguagem é composta de estranhamentos, como nas obras em que se apropria de material de modelismo; nas casas desmontadas, como caixas; nas microparedes que dividem o espaço expositivo ou nas maquetes de cinema feitas para filmes específicos. A representação do espaço está, assim, sempre no centro dos seus interesses, e o objeto de arte é uma espécie de índice ou antes mediador dessa relação entre o sujeito e o mundo. Em A clareira, porém, a alteração é mais de natureza temporal do que espacial. Ao evocar a memória e gerar um documento que é também uma obra, a artista nos coloca encapsulados entre passado e futuro, numa espécie de presente eterno. Aqui, para nosso alívio, nosso estado é de pura potencialidade.

Rodrigo Moura