Artur Barrio

INSTITUTO INHOTIM

Porto, Portugal, 1945; vive no Rio de Janeiro

Em 20 de abril de 1970, 14 trouxas ensanguentadas foram encontradas às margens do rio Arrudas, no Parque Municipal, em Belo Horizonte. Era manhã de segunda-feira, e, em pouco tempo, os transeuntes começaram a se aglomerar ao redor das trouxas, compostas de ossos, carne, sangue, barro, espuma de borracha, pano, cordas e cinzeis, envoltos em um tecido branco já manchado. A polícia e o Corpo de Bombeiros foram acionados pela população. Anonimamente, César Carneiro registrava a ação, com câmera fotográfica e de 16 mm.

Tratava-se de Situação T/T1, proposição artística de Artur Barrio para a manifestação “Do corpo à terra”, organizada por Frederico Morais, que aconteceu de 17 a 21 de abril de 1970. A colocação das trouxas no Arrudas foi a segunda parte de uma ação que havia começado na noite anterior, quando Barrio produziu as trouxas, descrevendo passo a passo sua sensação e o ambiente: “Manuseio de carne em estado de decomposição…..(…) cheiro…. memória….. tempo…. fumaça (…) liberdade etc. ….. ideias elétricas…”. Depois da aparição das trouxas ensanguentadas, aconteceu a terceira parte da Situação T/T1, quando Barrio desenrolou 60 rolos de papel higiênico nas pedras que margeavam o rio.

Português de nascimento, Artur Barrio ainda criança mudou-se para o Rio de Janeiro. Sua produção artística contesta, desde seu início, as categorias da arte, desafiando instituições e tensionando as condições de produção, circulação e consumo da arte. Ao escolher as matérias- primas para suas obras, Barrio opta por relacionar-se com resíduos orgânicos, lixo, sobras, tudo aquilo que é refugo. Em boa parte de sua produção, sobretudo aquela das décadas de 1960 e 1970, não há um objeto, propriamente, mas sim ações, eventos, acontecimentos, que lidam com o real, o poético e o político. Há situações.

Julia Rebouças